Desde o último show, as coisas pareciam nebulosas na cabeça de Haneul. Fracassar, naquela altura do campeonato, não era apenas uma nota ruim ou um motivo pra passar mais noites no estúdio ensaiando; parecia mais uma forma cruel do universo mostrar que que estava fadado aos “nãos” que a vida sempre dava. E até quando isso aconteceria? Ele não sabia. Mas estava prestes a desistir de saber, de qualquer forma.

Sua paixão pela música começou quando nem entendia direito o que ela poderia causar dentro de si. Um pequeno Haneul que usava as suas mãozinhas para batucar os brinquedos, aprendendo que aquilo pronunciava sons legais, ensinando isso para Bitna, que logo também caiu nas ideias do irmão…

Não foi exatamente a família que percebeu esse dom em ambos, mas pode-se dizer que essa curiosidade infantil logo se expandiu para um interesse no piano que a avó apenas usava como decoração em sua sala, e que era praticamente inutilizado até que os gêmeos decidiram tentar aprender. E a partir daí, as coisas começaram a andar: os avós investiram em aulas de música, e as aulas de música abriram portas pra outros instrumentos. No fim, não havia espaço para mais nada em seu coração.

E por muito tempo, aquilo foi uma certeza. Muita coisa aconteceu do Ensino Médio até o Conservatório de Paris… Apesar das perdas no meio do caminho, era como se a música pudesse fazê-lo esquecer das coisas ruins. Como se os dedos deslizando pelas teclas de um teclado ou pelas cordas de um violão fossem amenizar toda a dor que sentiu quando o seu avô foi embora, quando logo em seguida a sua avó também foi, e, no fim, Bitna resolveu ir pra outro continente. Foram muitas coisas que o frustraram, mas a coisa que mais amava ainda estava ali.

O problema mesmo é quando a única coisa em que podemos nos agarrar acaba sendo questionada o tempo todo. Foi assim quando fracassou no The Voice, foi assim quando precisou se moldar pra caber na indústria e têm sido assim agora, desde o início com julgamentos negativos por parte do programa. E, no entanto, por que se sentia tão feliz fazendo algo que, no fundo, parecia não ser a coisa certa? Ou será que a coisa certa independente de sucesso? E se a French Exit está onde quer estar, por que é que tudo diz o contrário?

E era exatamente por tudo isso que pensava em desistir. Não agora, mas depois. Vinte e quatro anos não é uma idade tão ruim pra procurar outra carreira, mas fazer isso era jogar toda a sua história no lixo, e quem sabe o sucesso não estava atrás de uma mesa de escritório?

Talvez o confinamento estivesse o fazendo enlouquecer um pouco. Estar em um reality significava ser o Dipper o dia inteiro, mas em alguns momentos ele preferia ser apenas o Haneul. Obviamente não eram duas pessoas distintas, só que… ele precisava se sentir em casa, mesmo que só um pouco. E era por isso que se sentia tão bem estando ao lado Viego e Bitna. Mesmo que os irmãos passassem mais tempo brigados do que definitivamente numa relação amistosa, o simples fato de esbarrar com ela pelas trilhas do acampamento era o suficiente para que se sentisse bem e em casa. E quando pôde sair para Toronto com as meninas da banda, a primeira coisa que procurou na cidade foi algo para presentear o melhor amigo.

— Ei, Biego. — Era assim que ele chamava, carinhosamente. Ele sabia pronunciar o seu nome, mas aquele apelido carinhoso pegou quando se conheceram, na escola. — Me dá a sua mão…

A lembrança não passava de uma fitinha rosa, comprada em uma lojinha nos arredores da cidade canadense. Quando o mais alto estendeu a mão, Haneul amarrou a tira rosa no seu pulso; posteriormente pediu que ele amarrasse a sua, de cor verde.

— Isso é pra você não se esquecer de mim quando sair daqui. — Disse, no esconderijo onde os dois se encontravam quando queriam sair dos olhares dos outros participantes e das câmeras.

E talvez aqueles momentos onde se esquecia do Dipper fossem o que mais precisava pra não desistir de tudo.